sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Capítulo IX

Almoçamos há meia hora. E Alice, como de costume, estirou uma rede no meio da sala. Dorme feito criança, um braço recuado para as costas, preso sob o torso muito alvo, a boca entreaberta. Ressona. Janelas e portas escancaradas para o nordeste, que não chega.

Inauguro mais este capítulo. Todavia o esforço empregado na composição das últimas notas findou por exaurir-me. A matança de criancinhas pobres na Casa de Saúde Danilo Rosendo ainda me enerva, bole comigo. Sacudo a cabeça para esquecer o morticínio praticado naquele açougue infantil. Mas os pensamentos claudicam, as idéias escasseiam, sufocadas pelo calor, tangidas pelo cansaço.

Procuro me distrair. Inclino-me na cadeira, estiro as pernas para debaixo da escrivaninha. Oscilo a cabeça num movimento aeróbico, circular. Tenho os ombros doridos, as costas suadas, a bunda suada. Levanto-me. Chego até o muro e investigo a rua por entre os combogós. Nada de novo na tarde periférica. O domingo boceja.

Vou ao banheiro. Alivio-me. Urino com abundância. Mas sem a tal festa de espuma de que nos fala Vinicius naquele ‘Soneto de Intimidade’. Lembrei-me disso enquanto balançava o diminuto instrumento. Passo ao lado da pia sem que me anime lavar as mãos.

O que Ramona estará fazendo agora? Não a vejo há muitos meses. E a moça do vestidinho azul (alma minha gentil), por onde andará com seu humano coração? Recordo essas criaturas, fantasmas vivos que de tempos a tempos me rondam os pensamentos. Angustio-me com a certeza de sabê-las tão remotas, tão inacessíveis. Vago pela casa, absorto, alheado como um ser noctâmbulo. Insisto no garimpo das idéias. Arrasto os chinelos na cozinha. Abro a geladeira, bebo um copo d’água.

Vejo a garrafa de café sobre a mesa e me sirvo da preciosa rubiácea. Sim, rubiácea, esse ‘palavrão’ exótico que descobri há duas semanas num romance de costumes do folclorista Sinésio Tavares, antigo membro do Instituto Histórico. Estilo verboso, alambicado, cheio de afetações e maneirismos, mas a rubiácea permaneceu na minha memória como um castigo, uma cicatriz, um remorso inamovível.

A literatura, ao que parece, tornou-se algo demasiado fútil. Experimentalismos anódinos e invencionices tacanhas concorrem para isso, transformam o ofício literário numa coisa trivial, uma arte movimentada muito menos pela vocação que pela vaidade de pseudo-literatos. Sim, é o que estou vendo. O sujeito escreve com o apuro e correção de um jumento decapitado, mas aí os críticos de chocadeira, os resenhistas de orelhas e prefácios, fazem do sambenito gala e todo mundo aprova.

Podia haver prêmios literários conferidos a escritores para que não escrevessem. É o que sugere o português Afonso Lopes Vieira em sua Nova Demanda do Graal. E ele está certo. Concordo plenamente. Porque falta semancol a esses bárbaros da escrita, indivíduos que andam por aí a jactar-se de méritos e glórias que não possuem.

Tudo à custa de uma mídia acaçapante, alienatória. Escreva como um cavalo, pisoteando a gramática e dando coices no idioma, que assim será um best-seller perfeito, um campeão de vendas, um sucesso estrondoso. É a nova tendência, garantem os críticos de chocadeira. Porque as grandes editoras deste país parecem haver descoberto que apostar na ignorância do grande público tornou-se algo muito mais lucrativo.

O guincho de um camundongo me resgata dessa cantilena inglória. Apuro o ouvido.

Um rato balburdia no fogão. Ouço-lhe as patinhas de minúsculas unhas arranhando o metal do forno. A casa está cheia deles. Alice maldiz os roedores, pega da vassoura, larga exclamações, empreende esforços para extingui-los. Inútil. Os catitos fogem, velozes como um rastilho de pólvora. Calculo que existam uns dez ou quinze. Agora não se privam sequer da vadiagem à luz do dia. Politizados, desconfio que se interessem pela programação da tevê. Alguns, de tanta astúcia, parecem humanos: insinuam-se amigáveis, engraçadinhos, dóceis, entretanto são todos desprezíveis, traiçoeiros. Careço adquirir umas ratoeiras, urgentemente. Rato é bicho nocivo.

Esqueço os camundongos. Torno a refletir sobre este capítulo, retomo as lucubrações. Em pé junto à mesa, os olhos mirando um ponto perdido no espaço, deixo-me ficar, a xícara de louça indo e vindo ao lábio trêmulo. Minhas mãos também são trêmulas. Sou um homem trêmulo. Da cabeça aos pés. Ainda mais nas horas de angústia, nos momentos de sufoco, de raiva, de desespero. Contrario-me com certa facilidade. Basta que me depare com algum desses crápulas da política ou da imprensa.

Olho o relógio pregado na parede: vinte minutos para as treze. Divago. O pensamento escapole, arredio como um político reeleito. Sorvo o último gole do café e regresso ao computador. Estalo os dedos, fito mais uma vez o quadrado luminoso da tela. Alice dorme, ressona com estrépito, um braço por sob o tronco, a boca entreaberta. O vento não chega. Os ramos da acácia paralisados, inertes. Lá fora, em meio ao mormaço, um carro de som despeja a propaganda enganosa de uma loja de eletrodomésticos:

— Imperdível! Tudo em até quinze vezes, no cheque e no cartão! — exclama o pregoeiro.

O carro vai-se embora, prometendo mundos e fundos, vantagens incríveis, negócios da China. A zoeira se distancia. Fixo o olho na tela e me recorda percorrer os caminhos labirínticos da internet. A conexão, de ordinário péssima, despenca a todo minuto. Hoje, porém, estou com sorte, avanço pelos arames invisíveis da blogosfera sem maiores tropeços.

Vejo primeiramente a caixa dos e-mails. Emito e respondo mensagens. Depois, já prevendo aborrecimentos, confiro o que dizem os mascarados dos blogs. Sim, mascarados. Mossoró inteira é um grande baile de máscaras. Somos todos mascarados. Uns um pouco menos, outros um bocado mais. Porém todos usamos máscaras. Especialmente os políticos, os jornalistas, os escritores. Amolo-me com a desfaçatez, com o cinismo dos homens da mídia, pseudo-formadores de opinião. Tipos dissimulados, afeitos à vassalagem, entregues a cambalachos e depravações.

A mesma coisa com os jornalecos, as versões eletrônicas dos pasquins impressos. Dois ou três. Não mais que isso. Tenho estômago fraco para suportar o mau cheiro que emana dessas cloacas virtuais do capachismo. Tiram-me do sério, suscitam-me furores, provocam-me náusea. Nem mesmo entendo o que diabos ainda me leva a desperdiçar o meu tempo examinando os dejetos de uma imprensa tão calhorda.

Mossoró não se emenda, vai de mal a pior. As pessoas se deixam levar por um ufanismo tolo, insensato. Tudo aqui é grotescamente espetacularizado. Uma terra que fez do pão e do circo a sua identidade cultural e que, por isso mesmo, não tem identidade cultural nenhuma. Não nascemos de um processo civilizador, mas da evolução de uma encruzilhada mercantil, de um entreposto, coisa assim. Aqui, até a liberdade é uma farsa gritante. O povo é escravo da mentira, ilude-se com o faz-de-conta.

Estamos longe, muito longe, de toda essa cascata desenvolvimentista que os Rosendos e seus marqueteiros delirantes alardeiam através dos canais de mídia. A realidade é bem outra. Muito diversa da propaganda fabricada pelo Palácio da Sonolência. Ainda assim os Rosendos reforçam a mentira, capricham no engodo, apostam na pirotecnia. Querem fazer crer lá fora que a vida nesta comuna anda às mil maravilhas, como se o município inteiro respirasse satisfação e transpirasse progresso.

— Uma ova!

Não pode haver progresso numa terra que se ufana de tanta coisa, que se diz capital disso e daquilo, enquanto suas criancinhas pobres, recém-nascidas, morrem à míngua por falta de uma UTI neonatal. Só mesmo em Mossoró. Tão desgraçadamente rica, e tão ricamente desgraçada.

Admito que meu combate à politicalha dos Rosendos tem motivações muito pessoais. Não há por que negar. Mas também é certo, é fato, que estão brincando com a vida de seres humanos, de gente humilde, de crianças pobres, na sinistra Casa de Saúde Danilo Rosendo. Duvido que um açougue desse tipo, onde tantos bebês prematuros sucumbem à míngua, ainda estivesse aberto se não fosse de propriedade de um semideus Rosendo.

Ora! Convenhamos! Há muito que tal espelunca já teria sido fechada. A população já teria ido protestar em praça pública, agitando faixas e brandindo cartazes. As instituições pretensamente sociais e culturais do município, no intuito de se promoverem perante a opinião pública, seriam as primeiras a reagir, a bradar nos veículos de comunicação. A justiça, hoje acovardada, cairia em cima, desceria o malho, cumpriria o seu dever, honraria o próprio nome, e o proprietário da referida espelunca estaria agora no xadrez, vendo o sol nascer quadrado, bem quadradinho.

Mas não. Como se trata de um Rosendo, de um batavo, de um falso nobre de pele rosada, então o povo desta província, a brava gente mossoroense, prefere ser omissa, fazer-se de boba, de desinformada, de cega e de surda. Por isso Lair Rosendo Sobrinho — espécie de Herodes da caatinga — continua livre da cadeia, caçoando, zombando dos raros protestos que ainda pipocam aqui e acolá, certo da impunidade.

É por essas e por outras que não adoro Mossoró.

2 comentários:

Fake disse...

E esse livro parou?

Juliano Sanches disse...

Viajei com as palavras. Bela descrição. Até me motivou a tomar um café e pensar em como podemos praticar ações de libertação.

Visite minha Casa, quando puder.

O endereço é:

(http://casadojulianosanches.blogspot.com/).

Um grande abraço.